quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Ser amigo


Para ser amigo de verdade não precisa ser uma estrela, um super-homem. Alguém que se sobressaia a todos, a tudo, em qualquer momento ou lugar.

Basta que seja humano, igual a todos ou outros humanos. Com virtudes e com defeitos. Forte e fraco. Basta ter sentimentos, ter coração.

Deve saber olhar fixamente nos olhos sem sentir medo de desvendar seus segredos, sem medo de descobrir segredos do amigo.

Precisa saber falar e saber calar nas horas certas. Saber ouvir. Respeitar a dor que o amigo carrega. Saber amar.

Saber compartilhar e guardar segredo. Gostar de ser chamado de amigo. Colocar a mão amiga no ombro do amigo – mesmo que virtualmente – a qualquer momento, não importa se for momento de alegria ou de sofrimento. Não importa se sorrindo ou se chorando. Mas que em qualquer circunstância, chame o amigo de amigo, e também se sinta amigo em todos os momentos.

domingo, 18 de dezembro de 2011

VIRAR A PÁGINA

Diz o provérbio: “Quando se chega à última página, fecha-se o livro”. Mas pode-se dizer, também: “Quando se chega à última página, inicia-se outro livro”. É uma questão de escolha.

A vida é feita de escolhas. Muitas escolhas. Escolhas constantes. A cada dia, a cada hora, a cada momento. Algumas erradas, muitas certas... Mas sempre e sempre muitas escolhas.

Será que somos reféns dessas escolhas? Ou da vida? Ou...?

Não sei. Talvez sejamos reféns de ambas – da vida e das escolhas. Ou de nós mesmos. Ou de ninguém... Não sei.

É possível que não sejamos reféns nem da vida, nem das escolhas, nem de ninguém. Atrevo-me a dizer que não somos reféns se tivermos vida e se fizermos escolhas. Escolhas acertadas, é claro.

As escolhas são o tempero e o combustível da vida. Através delas a vida toma jeito, se torna atraente, se reveste de um dinamismo singular e superlativo que distribui disposição para enfrentar os obstáculos, desmascarar paradigmas e realizar.

Por isso, ao se chegar à última página de um livro, é importante lembrar que outros, muitos outros livros com muitas páginas estão na fila, à nossa espera, para serem abertos, lidos, entendidos, vividos. Ou escritos, quem sabe. Páginas em branco para serem preenchidas. E cada página de cada um desses livros pode ser muito mais interessante e mais eloquente que todas aquelas já lidas ou escritas.

É preciso lembrar que a última página de um livro não é de fato a última página. Ela tem a função de ser precursora de outras ainda mais edificantes, inéditas talvez... É como o horizonte, tão grande e distante, mas que parece descansar sobre as ondas das montanhas ou no leito das pradarias. Parece ser do tamanho do alcance da nossa vista. Entretanto, se nos dirigirmos em sua direção vislumbramos um novo horizonte, ainda mais envolvente e maior que o primeiro. E quanto mais se avança, mais e mais horizontes vão surgindo, cada um com seus atrativos, com suas características e belezas, como páginas que vão sendo lidas, escritas, e deixadas para trás.

A vida é um grande livro. A diferença é que a última página ainda não foi escrita. E a gente nem sabe quando a escreverá. Cada um o fará a seu tempo, da forma como escreveu a primeira, a segunda, e todas as demais. Com o mesmo estilo. Se todas as anteriores forem interessantes, não haverá motivo para a última ser diferente, ou decepcionar, ou ser obscura ou de entendimento dúbio. Será a melhor, com certeza.

Todas as páginas são importantes. Precisamos escreve-las bem e ler com atenção cada uma delas, da melhor maneira possível. Corrigi-las sempre que necessário. Dar o melhor de nós em cada uma delas, em cada linha, em cada palavra, em cada letra. Assim a última será apenas a conclusão, a conseqüência, a coroação de um longo e frutuoso trabalho.

Cada momento vivido pode ser comparado a páginas do livro da vida que cada um, mesmo sem saber, escreve durante os seus dias. A cada dia mais e mais páginas. Podem ser páginas chatas, sem interesse, sem graça, sem qualquer atrativo. Ou páginas excelentes, recheadas de novidades atraentes, construtivas, criativas. Podem ser páginas repletas de pessimismo, de egoísmo, narcisistas, destruidoras. Mas podem ser cheias de otimismo, altruístas, construtivas. Páginas que semearão bondade, recordações maravilhosas, regeneradoras.

Quando virar uma página? Sempre que se acaba de lê-la, ou de escrevê-la, ou de assimilá-la... A cada momento. A cada dia, a cada ano que passa.

O fim de cada momento deve sempre ser o começo de outro ainda melhor. Não existe fim. Tudo é começo. Começo de algo, de uma situação, de uma vida.

(Postado no JNB em Dez/2011)

domingo, 27 de novembro de 2011

A lição das derrotas


Para os bons observadores, a vida é um grande e constante aprendizado.  Ninguém é tão sábio a ponto de não ter nada mais a aprender. E também ninguém deve se sentir tão ignorante a ponto de pensar que nada tem a ensinar. É através dos próprios erros e acertos, bem como da observação dos erros e acertos dos outros, que se conduz com firmeza os próprios passos.

Há um provérbio latino que diz: “errandum discitur”, entendido equivocadamente por muitos como “é errando que se aprende”, quando a tradução deveria ser “errando se aprende”. Aceitar a primeira tradução (é errando que se aprende) seria conformar-se com a necessidade de se errar para aprender e negar a própria capacidade de criação. Seria condicionar a aprendizagem às derrotas, aos erros. Seria aceitar que não se tem capacidade de acertar sem errar primeiro. No dia a dia acontecem mais acertos do que erros. Através dos erros e das derrotas se aprende, mas é através das vitórias que se aprende mais, porque além de ter aprendido o caminho, surgem os fatores motivação e segurança, e aumenta a autoconfiança. Os erros nos ensinam a não repeti-los, mas não ensinam necessariamente o caminho certo.

As derrotas são fracassos somente quando são aceitas como fatos consumados e irreversíveis. Deve-se encará-las como tentativas de acertos que não deram certo. Devem ser um ponto de partida para um acerto, para uma vitória. Em cima das derrotas é possível construir grandes vitórias.

As derrotas, não importa o seu tamanho, a sua dimensão, as circunstâncias como ocorreram, nem o alcance das suas conseqüências, podem se transformar em trampolim para originar saltos distantes, certeiros, seguros. Podem se transformar em alicerces firmes para, sobre eles, edificar-se vidas de sucesso.

Não de deve aceitar a necessidade dos erros, das derrotas. Mas quando acontecem, deve-se identificar a sua origem para se tomar duas atitudes: não repeti-los e traçar caminhos diferentes e seguros.

Fazer das derrotas e dos erros um aprendizado é assegurar-se de não repeti-los e, ainda, estar disposto a enfrentar todos os desafios que a vida apresenta, sem medo de errar, e sem medo de acertar. O foco deve ser sempre o acerto.

sábado, 29 de outubro de 2011

O meio ambiente é a nossa vida.

Mãe natureza. Quantas vezes já ouvimos esta expressão... E na maioria das vezes soa despercebida aos ouvidos, sem chamar a atenção, como se fosse só mais uma expressão que pouco ou nada agrega à nossa vida.

Mas aqueles que se detiverem alguns instantes para refletir sobre a expressão, provavelmente perceberão a sua força e a sua profundidade. Não são apenas duas palavras, ou mais uma frase de efeito. É a comparação da natureza com a mãe. A mãe que dá a vida, que alimenta o filho desde os primeiros momentos da concepção, que o veste, que o ampara, que está presente sempre que necessário. Tudo isso (e muito mais!) se recebe da mãe.

E a natureza é mãe por quê? O alimento, a água, o ar, a luz, o fogo, o chão, enfim tudo o que se necessita é dado pela natureza. Todos nascem através da natureza, saciam a sede e a fome pela natureza, vivem de natureza na natureza. Tudo o que é necessário para existência física de todos os seres vivos é fornecido pela natureza. Daí pode-se afirmar com todas as letras: a natureza é mãe, é vida.

Tudo o que a natureza oferece é importante, é riqueza. Dádiva para ser usufruida para o bem da humanidade e da própria natureza. Mas não se pode esquecer que existe um limite físico muito claro: A terra é uma só, possui dimensões definidas e, portanto, a sua utilização, bem como dos seus bens, deve ser feita com parcimônia e corretamente, para evitar que bens imprescindíveis se extingam e venham a faltar.

Quando se explora a natureza, em qualquer segmento produtivo, como o da agropecuária, da indústria, da mineração, de serviço, etc., não se pode esquecer que além do lucro, a iniciativa deve prever também os benefícios para o povo e para o planeta. Não existe negócio bom se não for bom para todos os envolvidos (no caso, o planeta, o povo e o investidor). Quando se mira apenas lucro, é grande o risco de degradação do meio ambiente, da natureza. É claro que todo investimento e todo trabalho deve prever o lucro. Mas deve considerar, no mínimo na mesma proporção, o bem estar da população e a preservação do meio ambiente. Isso é sustentabilidade. Tudo o que é simplesmente tirado da natureza e não for reposto, acabará mais rápido do que se prevê, e de maneira irreversível.

É direito e dever dos povos usufruir dos bens, das riquezas que a natureza proporciona, mas precisa estar atentos para que essas riquezas não terminem. A reposição das riquezas renováveis deve ser algo que flua naturalmente. Já as riquezas não renováveis, como a água, os minérios, dentre tantos, devem ser utilizadas com inteligência, sabendo que poderão faltar, com grandes prejuízos para todos.

Um procedimento muito importante para a preservação do meio ambiente é a reciclagem. Tudo pode ser reciclado. Além de preservar riquezas na natureza, a reciclagem ajuda a evitar a degradação da própria natureza. Tudo o que é reciclado e reaproveitado deixa de ser jogado e acumulado na natureza, e evita poluição de rios, lagos, lençóis freáticos e a própria terra. Amar a natureza é preservá-la. Não diria que devemos deixá-la como a encontramos: somos suficientemente inteligentes para deixá-la melhor. Transformá-la para melhor. Melhorar o local onde vivemos.

“A cultura de preservação e de uso consciente dos bens que a natureza proporciona é prova do elevado conceito de responsabilidade de um povo que sabe o que quer. A natureza é justa: se bem tratada, ela nos brinda com o que tem de melhor. Do contrário, ela se volta contra nós (e sempre levamos a pior)”.

(Publicado no JNB em agosto de 2009)

O meio ambiente merece


Nunca se falou tanto em preservação do meio ambiente como nos últimos anos. E cada vez mais o assunto se intensifica. Finalmente as populações estão se convencendo do antigo provérbio que diz: “sabendo usar não vai faltar”.

O meio ambiente é o local onde nós vivemos. Deixar este local bonito ou feio, agradável ou ruim, depende exclusivamente de nós. É muito fácil dizer que o meio ambiente deve ser mais bem cuidado, preservado. Mas não se pode esquecer que cada um de nós faz parte deste mundo, deste povo, e reside neste meio ambiente. É fácil inflar o peito e exclamar que o meio ambiente não vem sendo conservado adequadamente. Difícil é aprender, e se convencer, que a preservação deve começar em cada indivíduo. O resto é conversa. As populações são formadas por indivíduos. E cada um é responsável pela sua parte. Não basta olhar o quintal do vizinho. Precisa primeiro transformar o próprio quintal.

Quanto mais as populações crescem, maior será a demanda por alimentos e por água (itens básicos para qualquer ser vivo se manter). Mas alimentos e água não são infinitos. Principalmente a água, pois ela não é renovável. Não há criação de novas águas. A que existe está aí. Por isso, deve ser utilizada corretamente.

O mundo inteiro está preocupado com a possível escassez de água a médio prazo. Essa escassez não é causada porque a água está sumindo, mas porque as populações estão crescendo muito e a demanda por água cresce a cada dia. Além disso, a demanda por alimentos também cresce vertiginosamente. E a produção de alimentos exige cada vez mais água. É por esse motivo que se deve tratar da água com muito carinho, como se fosse alguém da família.

A cultura de preservação e de uso consciente dos bens que a natureza nos proporciona é prova do elevado conceito de responsabilidade de um povo que sabe o que quer. A natureza é justa: se a tratarmos bem, ela nos brinda com o que tem de melhor. Do contrário, ela se volta contra nós (e sempre levamos a pior).

Portanto, mãos à obra. Sejamos não apenas formadores de opinião, mas pioneiros, conscientes das causas a serem abraçadas para que da mesma forma que nós, as gerações vindouras também possam desfrutar desta natureza maravilhosa colocada a nossa disposição. Arregaçar as mangas e agir rápido é próprio de quem se adianta ao futuro e não se deixa surpreender pelas contingências do caminho.

O meio ambiente merece...

(Publicado em junho de 2009)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A vida é para ser vivida!

Todos sabem que a vida é o maior de todos os dons concedidos a um ser humano. Disso ninguém duvida.

A vida nasce conosco. Ou será que somos nós que nascemos com ela? Não sei. Será que alguém sabe? A resposta não é relevante. O que é fato é que a vida nos acompanha (ou nós a ela!) desde a nossa concepção até o derradeiro suspiro, quando a alma dá um “até logo” ao corpo que lhe deu guarida.

Nesses dias comemoramos o dia da criança, como acontece todos os anos. Apesar de que o dia da criança deveria ser cada um dos dias do ano. Partindo desse conceito, costumo comparar a vida a uma criança: inicia como bebê, indefesa, cresce um pouquinho por dia, passa pela puberdade, pela adolescência, juventude, idade adulta, a velhice – ou terceira idade (digo, a melhor idade! – que chique!). Por fim a separação. O fim material.

Então a vida nos acompanha a cada momento de nossa existência? Ou será que a existência é a própria vida? Ou somos nós que a acompanhamos? Ou somos parte dessa vida, ou dessa existência? Complicado...

Existem pessoas que afirmam que comandam a própria vida em todos os seus acontecimentos. Outros acham que somos guiados por um destino já traçado, definido, imutável. Quem está certo? Acho que é mais uma pergunta que jamais terá uma resposta unânime, uníssona, consensual, que agrade ou satisfaça a todos. E por um lado é bom que existam pontos de vista diferentes em diferentes pessoas, conceitos divergentes, pensamentos antagônicos, pois a diversidade é uma grande escola, e através dela todos podem crescer. Isso realmente é relevante.

Independentemente da resposta ao questionamento acima, se é que realmente existe uma resposta, confesso que continuo sem me preocupar com ela. Faço parte daquela parcela de pessoas que não se conformam em aceitar as coisas da forma como elas se apresentam, como se fosse fato predeterminado e consumado. A exemplo das crianças, que têm por hábito questionar a tudo desde os primeiros anos, instigadas pela curiosidade, ou pela vontade de ser e de fazer diferente, ou movidas pela rebeldia inerente a todo ser humano, prefiro questionar e verificar se as coisas, as circunstâncias, os acontecimentos não podem ser conduzidos de outra forma, de uma maneira diferente, para obter resultados melhores e com isso agregar mais valor a esses resultados e a seus efeitos.

A vida pode ser monótona ou dinâmica (muito ou pouco!). Se monótona, será pouco atraente. Se dinâmica, os efeitos serão completamente diferentes, devido à intervenção da nossa vontade de transformá-la em momentos bons, ou muito bons, quem sabe... maravilhosos. Isso é fato.

A gente pode ser apenas hospedeiros da vida, e deixar que ela evolua espontaneamente, aceitando passivamente tudo o que ela oferece. Mas podemos ser seus artífices, transformando-a a cada dia com nossa intervenção constante e corajosa, desbravando todos os seus segredos, trazendo-os à luz para serem entendidos e transformados em momentos de felicidade através do nosso trabalho, da nossa ação, da nossa vivência e perseverança. A vida é para nós o que permitimos que ela seja.

Não é verdade que para se ter uma vida feliz é preciso que ela se apresente maravilhosa a todo momento. O importante é aproveitar todos os bons momentos e transformá-los em ótimos momentos através da nossa ação. Os momentos ruins também têm sua função em nossa vida. Depende da forma como os encaramos: podem nos derrubar, desanimar, nos levar a “jogar a toalha”, ou podem se apresentar como desafios à nossa capacidade criativa de transformação. Tudo pode nos elevar: cada queda sofrida pode parecer uma derrota, ou uma nova possibilidade de se reerguer e recomeçar (já disseram que até um tropeção nos empurra para a frente!).

A felicidade não está na quantidade de momentos felizes que a vida nos oferece, mas na intensidade com que se vive esses momentos, sobretudo se formos responsáveis pelo seu surgimento. A beleza de uma vida não deve ser medida pela quantidade de momentos, de dias, meses, anos... bons, mas pela qualidade de todos os momentos, bons e ruins, geridos com coragem e com espírito de vencedor: de quem sabe tirar bom proveito de qualquer circunstância.

Por isso, viver a vida é muito mais do que esperar para ver o que ela nos oferece: é ser seu próprio artífice, que a burila no dia a dia, a transforma e a faz ficar bela e interessante em todos os seus momentos.

(Postado no JNB em outubro/2011)

domingo, 2 de outubro de 2011

Dar o peixe ou ensinar a pescar?


É apenas uma frase de efeito como tantas outras que correm de boca em boca e ninguém sabe o que fazer com elas. É cultura inútil, com aplicabilidade duvidosa.

Por exemplo, para o programa “Fome Zero”, do governo federal, que é uma idéia brilhante, um objetivo humanitário, um princípio eminentemente cristão, afirmar que “não adianta dar o peixe, precisa ensinar a pescar” pode não ser a solução. Pode não ser uma verdade e pode não se aplicar. 

O programa se iniciou em algumas comunidades do nordeste. Povo sofrido, necessitado, que precisa receber imediatamente o “peixe”, representado pelo alimento. Não é possível exigir qualquer coisa de alguém que esteja de barriga vazia. Alimentá-lo é o primeiro passo.

Permanecer só na alimentação, porém, seria puro assistencialismo, a perpetuação da miséria. Então, é importante adotar outras medidas: “ensinar a pescar” e principalmente “dar condições de pesca”. No caso, ensinar a semear, a cultivar. Mas isso eles já sabem fazer com muita competência: um povo que consegue arrancar alimento de uma terra árida “sabe pescar” muito bem. O pessoal do semi-árido “não pesca” e passa fome porque não tem alimento. Semeia e não colhe porque não chove ou chove muito pouco. Não chove e falta água. Aí o problema central: falta de água.

Por isso, para o caso dessas comunidades rurais, devem ser adotadas medidas fortes, como continuar a fornecer alimento, proporcionar água para o consumo humano, animal e para irrigação, mediante perfuração de poços artesianos comunitários, cacimbas, represamentos de rios, coleta de águas pluviais, etc. Abandonar as terras sem condições de serem cultiváveis. Fornecer sementes de boa qualidade, de produtos adaptados à região. Desta etapa depende o sucesso do projeto. É necessário que o preparo da terra e o plantio sejam acompanhados por técnicos, podendo esses ser estagiários ou recém formados nas escolas agrícolas federais, estaduais, municipais. Será uma oportunidade de eles aplicarem o seu aprendizado. A partir das primeiras safras obtidas com êxito, poderá ser suspensa a remessa de dinheiro para a alimentação e destinar o valor às mesmas comunidades para a saúde, educação, infra-estrutura, moradia, etc. Em pouco tempo, o cenário será outro.

Como se vê, a solução do problema não está só em dar o peixe e/ou ensinar a pescar, mas em dar condições propícias para a pesca (água, sementes, acompanhamento técnico) para não se correr o risco de ensinar a pescar num rio sem peixes (onde nem o melhor pescador do mundo conseguiria pescar), mas transformar solo árido em produtivo.

O sucesso não está tanto no ensinar a pescar. O êxito aparece com maior rapidez quando se dá condição de pesca. Então, precisa alterar aquela frase inicial e dizer “dar o peixe e educar para a autonomia”. Assim é melhor. É uma alternativa que leva à solução definitiva, sem se correr o risco de cair no populismo, na demagogia. É importante que todos se juntem nesta cruzada, independentemente de tendência religiosa ou bandeira política. A recompensa será a certeza do bem cumprido, o resgate, a felicidade e o bem-estar de um povo que sempre foi marginalizado e esquecido, lembrando que esse povo está localizados em todas as regiões geográficas do Brasil.

(Publicado no JNB em 26 de abril de 2003)

sábado, 24 de setembro de 2011

Coisas que a gente enxerga, mas não vê


São tantas coisas que passam pela nossa vida no dia-a-dia e que muitas vezes passam despercebidas, devido ao hábito, à rotina, à pressa, ao julgamento precipitado, que nos levam a perder o espírito de observação e o senso crítico.

Por comodismo a gente se apega e se fixa àquilo que aparece à primeira vista, sem antes passar pelo crivo da nossa avaliação. É algo parecido com determinados produtos que são colocados no mercado com forte campanha na mídia: “se formos com a cara deles”, tudo bem, do contrário, “não prestam”. Deixa-se de analisar se é realmente o melhor ou se é apenas mais uma jogada de marketing.

Em relação às pessoas pode acontecer o mesmo. Nem sempre o primeiro contato é o que vale, pois é fácil ver primeiro os defeitos, os pontos fracos, os cacoetes. Parar por aí pode significar deixar de conhecer grandes virtudes dessa pessoa. É como ver apenas o rótulo e satisfazer-se com ele antes de conhecer o seu conteúdo. Esquece-se que a verdadeira essência das pessoas é o seu conteúdo, não o seu rótulo ou a sua fachada.

Todos têm defeitos e virtudes. Por motivos que por hábito não se analisa, é comum dar mais ênfase aos defeitos e às deficiências das pessoas. E com isso forma-se uma espécie de cortina que encobre as suas virtudes. Prova disso são as fofocas. Nas fofocas fala-se sempre dos defeitos e dos erros de alguém, e às vezes até dos erros que poderão vir a praticar um dia, ou quando voluntária ou involuntariamente se tenta projetar nossas próprias deficiências sobre os outros.

Permanece-se muito mais tempo falando mal do que bem das pessoas. E esquece-se que quanto mais tempo se gasta em pensar e comentar coisas ruins, mais a mente se impregna de pensamentos negativos, fazendo com que eles influenciem a própria vida.

Buscar as virtudes nas pessoas, é um ato humano e divino. Além disso, engrandece e ajuda a mente a cultivar bons pensamentos, bons exemplos e ter a certeza que é possível ser mais otimista.

O fofoqueiro, aquele que se deleita em divulgar os defeitos dos outros, é acima de tudo um fraco: tem medo de perder o seu espaço, de ser elvolvido pela sombra do outro. Perde muito mais do que ganha, pois além de acabar acreditando no que fala, o seu pessimismo o ofusca e o inibe de captar as boas energias que emanam das virtudes do outro.

Ver primeiro e valorizar mais as coisas boas e as virtudes dos outros, além de ser uma atitude correta, valoriza a vida, deixando-a mais alegre. Traz bons fluidos, deixa a alma inebriada de otimismo. De um modo geral as pessoas têm mais potencialidades do que deficiências, mais virtudes do que defeitos. Vê-las com esses olhos é enriquecer-se a si mesmos, criando sempre mais energia positiva que ajuda a viver na paz, na fraternidade. Valorizar o que é bom é como cultivar flores: além serem lindas, elas nos presenteiam exalando-nos gratuitamente o seu rico perfume.  

(Artigo publicado no JNB em 24/07/2004)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O valor da vida

A vida é o maior dom que qualquer ser vivo recebe de Deus. A gente nem pensa tanto nisso, pois é tão normal viver o dia a dia, sem esforço para começar ou para terminar cada minuto que passa.

As pessoas vivem tão acostumadas a viver que sequer se dão conta do tempo que se esvai a cada instante.

As pessoas só se dão conta do valor das coisas boas quando elas faltam, ou quando as perdem.

Com a saúde acontece o mesmo: as pessoas só se lembram de valorizá-la quando a perdem.

E a vida? Bem, a vida é o que existe de mais precioso. É através dela que tudo acontece nesta terra. Através dela a gente realiza e se realiza. A gente se emociona. Tem momentos felizes= e tristes.

É importante viver a vida intensamente. Cada um dos minutos, sem perder nenhum. Viver a vida intensamente e conviver com as pessoas queridas o maior tempo possível. Cada momento bem vivido será sempre um momento prazeroso. Não importa se há sofrimento, se há dificuldades, se a vida nos parece dura. Mesmo sendo dura vale a pena vivê-la intensamente.

Quem vive intensamente cada momento soma, agrega valor a sua própria vida, e se torna referência para os outros. Nunca sentirá a sensação de estar devendo para a vida.

Viver a vida intensamente, compartilhar nosso tempo com quem amamos é ser feliz. Quem vive desse jeito, sempre levará consigo boas lembranças, momentos inesquecíveis, inclusive quando essa convivência se encerra pela partida derradeira de alguém querido.

Viver a vida intensamente é dar-se valor e valorizar as pessoas. É se amar e amar aos outros. Enfim, é viver de verdade.

(Postado no JNB em agosto/2011, em homenagem a uma pessoa muito querida que já se foi, mas que permancerá para sempre em nosso coração!)

domingo, 14 de agosto de 2011

O país do deixa disso

Entra ano, sai ano e as notícias de falcatruas se reproduzem. Ora de um gênero, ora de outro. Ora envolvendo um partido, ora outro. Ora um governo, ora outro.

Até onde?...

Nesses dias assistimos à queda do Ministro da Casa Civil do atual governo. Motivo: Possíveis falcatruas? Verdades ou mentiras? Ainda não se sabe... Mas, será que a verdade será apurada e revelada como esperado por todos?

Em qualquer país civilizado presume-se que o erro seja apurado e corrigido, independentemente da origem, da classe social, do padrão econômico dos envolvidos. E quando as denúncias se confirmam, que seja feita justiça. Se ficar comprovado que não passam de fofocas, justiça seja feita da mesma forma, resgatando a honra do denunciado e aplicando a lei ao denunciante. O que não pode é colocar panos quentes, “negociar”, “fazer acordos” e descartar tudo no túmulo do passado. Isso é agir com seriedade.

Esses fatos são uma constante no Brasil, apesar do grande avanço que já se deu em direção ao crescimento, com grande repercussão no começo, e em seguida remetidos ao esquecimento sem que o povo saiba até onde chegaria verdade ou onde começaria a denúncia infundada, a fofoca, a mentira.

A lógica é a apuração sempre. E isso não deve ser obrigação, mas cultura. Cultura de um povo que trabalha, que paga impostos, que elege os integrantes dos poderes legislativo e executivo.

Somente quando tem o direito de ser ouvido, de ser atendido, e exige que esse direito lhe seja concedido, é que se pode afirmar que um povo é verdadeiramente independente.

“Deixa disso” pode significar deixar-se enganar, ou não querer ir adiante, deixar de lutar por algo que se quer muito. Em alguns casos significa deixar de lado algo que realmente não compensa que se dê sequência e partir para algo melhor. Depende de cada um. O resultado também...

(Publicado no JNB em junho de 2011)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Precisa fazer acontecer


É verdade. Só quem tem vontade e perseverança consegue concretizar os inúmeros planos desabrochados da imaginação e da inteligência. Ter vontade e ser perseverante significa arregaçar as mangas e começar a fazer. É terminar o que se começou. É assim que tudo acontece.

Da mesma forma como nada acontece por acaso, tudo acontece pelo trabalho e pela dedicação. Trabalho e dedicação não devem ser entendidos apenas como o ato de executar: é um longo processo que se inicia pela identificação de necessidades, segue pela escolha de prioridades, com trânsito obrigatório pelo planejamento detalhado e pelo cronograma de realização, que abrigam todos os movimentos desde a partida até a chegada, prevendo-se ainda os caminhos a serem seguidos e as suas dificuldades.

Grandes idéias são sempre grandes idéias, mas não passam de grandes idéias. Pequenas idéias podem ser mais valiosas que idéias mirabolantes: o que vale é fazê-las funcionar na prática, tornar-se realidade, concretizar-se. Essa é a diferença.

Nem sempre as idéias, por mais originais e criativas que possam parecer, necessitam que seu autor seja um gênio. A verdadeira genialidade está na descoberta de como fazer para convertê-las em fatos, pois o que vale é a ação final. O verdadeiro gênio é aquele que além de gerar a idéia indica o modo para fazê-la funcionar na prática. A diferença entre a idéia e a sua conversão em realidade é tão grande, que entre ambas existe um abismo do tamanho do infinito. Esse abismo só desaparece quando é transformada em algo palpável.

As idéias são necessárias para o desenvolvimento das pessoas e da humanidade, independentemente do seu tamanho ou do seu alcance. É muito importante gerar idéias, divulgar idéias, defender idéias. Quanto mais idéias, melhor. Mas precisa pô-las em prática para que se tornem úteis. Para tal é necessário ser realistas, avaliar os recursos disponíveis e começar.

Todo projeto, nascido de uma ou de muitas idéias, é viável quando levado a sério, com data de início e de término, com disponibilização dos recursos necessários em todas as suas etapas, com supervisão, empenho, seriedade.

De boas intenções o mundo está cheio. De bons projetos, também. A diferença está em fazer acontecer. Fazer acontecer é próprio dos grandes líderes, não dos demagogos, dos populistas, mas daqueles que exercem a verdadeira liderança,  que não se contentam em saborear a brisa suave das manhãs ou do final das tardes, mas que a transformam em energia, em vida. Daqueles que não se contentam em ser platéia, mas que atuam à frente dela. Daqueles que não se conformam apenas em colher os frutos, mas que têm a consciência de ter lançado à terra as sementes que os geraram.

Fazer acontecer é dizer não à mesmice, é não esperar que alguém faça primeiro para comprar ou para copiar deles. É não ter vergonha de tentar e não conseguir. É perseguir um objetivo até alcançar. É ter a coragem de começar e de recomeçar, de errar e de reconhecer o erro. É acreditar em si e nos outros. É sentir a alegria de acertar. É ter força para se levantar sempre e tirar lições positivas dos erros, dos tropeços e das quedas, transformando-os em trampolins para atingir distâncias ainda mais marcantes.

Fazer acontecer é ter a competência de reconhecer as próprias limitações, de pedir e receber ajuda, e de ajudar. Ter habilidade suficiente para driblar as adversidades, administrar as contrariedades, superar as dificuldades, e valorizar intensivamente tudo o que é bom e positivo em cada uma das ações vividas. É saber que se pode vencer. É saber aproveitar os fracassos para repor as forças e prosseguir rumo ao objetivo.

Fazer acontecer é próprio de quem é vencedor e tem consciência disso. É próprio do líder. Ambos sugerem a mudança, provocam a ruptura de paradigmas, incentivam a prática do crescimento, alertam para os riscos que podem decorrer da falta de ação, abraçam uma idéia e a elevam à categoria de ideal para transformá-la em fato. Não esperam que outros o façam, fazem primeiro.

domingo, 5 de junho de 2011

Precisa ser bom de briga


A inteligência é o grande motor que impulsiona as pessoas, que projeta suas decisões, direciona seus atos e alimenta o seu senso crítico. Esse motor, como qualquer outro, depende de combustível para funcionar. O seu combustível é a vontade. Quanto maior a vontade, maior a quantidade de combustível despejado, aumentando as rotações, resultando em maior aceleração e gerando mais força. A vontade é a engrenagem que faz a junção do motor com os demais equipamentos, distribuindo a energia, fazendo tudo funcionar harmoniosamente. A união da inteligência e da vontade gera a perseverança, também conhecida por persistência.
Não é fantasia. É realidade. A inteligência, seja muito ou pouco desenvolvida, só é criativa se acompanhada da vontade. Vontade de conseguir, de inovar, de empreender, de acertar, de ser um desbravador. Quanto maior a vontade, maiores as perspectivas de evolução da inteligência. Isso supõe muito esforço, sacrifícios, renúncias. Daí surge a perseverança. Nada funciona sozinho.

A inteligência, a vontade e a perseverança funcionam melhor enquanto juntas, atuando decididamente dentro das pessoas. As pessoas são o receptáculo dessa maravilha. A disposição das pessoas de enfrentar dificuldades e sacrifícios abre caminho para que as teorias criadas pela inteligência e escolhidas pela vontade se materializem e produzam os efeitos esperados.

As pessoas são o instrumento através do qual se realizam os efeitos da inteligência e da vontade. Enquanto permitem o funcionamento da inteligência e da vontade, recebem delas a energia necessária para discernir e escolher a melhor maneira de alcançar as metas.

A atuação conjunta da inteligência, da vontade e da perseverança gera os atos. É esse trio que define o ritmo, a velocidade do andar, da busca. É através dessa união que se briga para alcançar o que se busca. A briga é uma forma determinada de buscar e de alcançar. Quanto mais se briga por algo, maiores as chances de se alcançar. Brigar, brigar muito, brigar sempre. Brigar constantemente e sempre com muita determinação.

Não se trata de brigar contra quem quer que seja, mas a favor daquilo que se deseja alcançar. Brigar para vencer não significa estar contra alguém ou contra algo, mas a favor de si próprio, dos outros, ou de uma causa. Brigar, não para derrotar, mas para ser um vencedor. Brigar em favor de si próprio ou em favor de alguém, ou de alguma causa. Brigar para se superar a cada dia, a cada momento. Brigar para derrotar alguém ou alguma situação é diferente de brigar para vencer. O foco muda.

Brigar para vencer alguém é apenas uma demonstração ou uma comparação de força. Significa deixar para trás um rastro carregado de manchas de tristeza, causado pelas derrotas impostas a alguém. É deixar um legado vitorioso, mas temperado com fortes doses de pessimismo. Inteligente é brigar para superar as próprias limitações a cada nova investida, deixando para trás um número sempre crescente de vitórias. É um legado glorioso, repleto de conquistas, de vitórias inesquecíveis.

Essa briga constante é a determinação. Estar determinado significa buscar com afinco, com garra o que se arquitetou e escolheu através da inteligência e da vontade. É um círculo formado por anéis entrelaçados uns aos outros: inteligência, vontade, perseverança. A primeira abre horizontes e define os caminhos, a segunda escolhe e decide, a terceira derruba as barreiras que se antepõem e assume o compromisso de não esmorecer e de não parar até chegar ao destino.

Essa é a vida dos aguerridos, dos vencedores. Lutar, brigar pelo que desejam alcançar. Traçar metas, definir estratégias, empreender, fazer correções de rumo sempre que necessário, recuar às vezes para tomar fôlego, mas sem desistir, para recomeçar com mais lucidez e determinação. A determinação é fator importantíssimo na caminhada rumo às metas. Todos os grandes campeões passam por dificuldades enormes e muitas vezes são tentados a desistir. A vontade e a perseverança são as molas que impulsionam as pessoas para frente, fazendo-as se superar a cada instante.

Poucas coisas importantes são de fácil acesso. Quanto mais importantes, maior o grau de dificuldade e mais forte o convite para desistir no meio da caminhada. É o tamanho da vontade e da perseverança que fazem a diferença. Esta é a marca dos campeões: falar pouco e agir muito, com garra, brigando sempre a favor daquilo que desejam. Portanto, brigar muito, brigar sempre, mas brigar a favor de si mesmos e daquilo que busca. Esta é a diferença que caracteriza os fortes.

(Artigo publicado no JNB em 26/01/2007)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Minuto de silêncio

As cenas de horror ocorridas dia 07/04/2011 na Escola Municipal Tasso da Silveira, no bairro do Realengo, zona oeste do Rio, ganharam as manchetes da imprensa mundial. Era 07 de abril de 2011. Dia fatídico. A violência silenciou para sempre 12 crianças ainda no desabrochar da vida, portadoras de sonhos, de esperança, de vontade de viver. 12 vidas injustamente interrompidas.

Um único assassino ceifou a vida de 12 crianças, antecipando a Sexta Feira da Paixão para suas famílias.

O que poderá levar uma pessoa a praticar tamanha iniquidade? Raiva? Ignorância? Desprezo pela vida? Falta de Deus no coração? Jamais saberemos. A resposta será sepultada para sempre, juntamente com o autor dos disparos. O bandido era ex-estudante daquela mesma escola. Por isso, não era um ignorante. Teve sua oportunidade de estudar, de aprender.

A verdade é que a tristeza, as lágrimas e a comoção de uma nação inteira não trarão de volta aquelas 12 crianças.

Infelizmente, apesar da gravidade, não é um caso isolado. É claro que o fato de ter sido um massacre de crianças, a repercussão não poderia deixar de ser tão grande. Mas, diariamente vidas são ceifadas no Brasil, por causa de latrocínios, balas perdidas, vinganças, ou outros motivos que, por grandes ou pequenos que possam parecer, não justificam o ato.

Está na hora de valorizar a vida. A vida de todos. Desde o nascimento da criança até o último momento. Só assim para transformar este num mundo melhor, onde todos têm oportunidade de ser correto, de ser gente de verdade, pois interromper uma vida é  interferir nos planos de Deus.

Está na hora de cultivar a cultura do bem, da criatividade, da valorização da vida, de tudo aquilo que agrega valor às pessoas e aos seus atos.

Nossa solidariedade às famílias atingidas pelo massacre do dia 07/04/2011. Nossa solidariedade, também, às famílias que enterram (e às que já enterraram) seus filhos, cujas vidas foram interrompidas bruscamente por motivos fúteis, ou até sem qualquer motivo. Nossa torcida para que nenhum pai e nenhuma mãe devam sentir a dor de enterrar um filho.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O TEMPO: realidade ou ilusão?

Desde o nascimento as pessoas iniciam um longo aprendizado. Aprendem a chorar, a mamar, a sorrir, depois a balbuciar as primeiras palavras, a engatinhar, a caminhar... E todas as demais pessoas que o cercam julgam ter algo importante para lhe ensinar.

Os primeiros anos passam. Surge a grande preocupação de preparar o rebento para a vida, para o futuro. Ingressa na pré-escola. Começa o ensino fundamental. Passa para o ensino médio. Ingressa na Universidade. Passa os anos da sua juventude sentado em bancos escolares. Aprende a ler. Lê muitos livros. Faz inúmeros exercícios. Aprende a escrever. Aprende a se comportar na sociedade, a falar com desenvoltura. Faz cálculos, domina outros idiomas. Enfim, assimila tudo o que se diz que contribuirá para a formação do homem maduro e moderno.

É imensurável a gama de informações despejadas sobre esse aprendiz. Aprende história, desde os tempos mais remotos, a idade da pedra, as conquistas, as guerras dos primeiros povos. Estuda os grandes pensadores, os filósofos, as Cruzadas, as aventuras gregas, o império romano, a formação dos países modernos, as alianças entre nações, e muito mais. Exigem-lhe conhecimentos profundos de geografia, decora o nome dos países, das suas capitais, de seus idiomas, religião, tamanho da população, rios, montanhas...

É minuciosamente testado sobre os feitos dos heróis do passado. Memoriza princípios e teorias descobertos por gênios de outros tempos e aprende até a aceitar alguns como definitivos e incontestáveis. Habitua-se a repetir o que outros disseram, fizeram, realizaram, criaram, com o compromisso de não se distanciar dos princípios básicos e fundamentais já definidos.  Em síntese, é grande a preocupação de rechear o seu cérebro de informações que, apesar de válidas, são limitadas, pois condicionam ao plágio e restringem a liberdade de criar e de inovar.

É dada pouca ou nenhuma importância ao desenvolvimento criativo do seu cérebro com o objetivo de prepará-lo para buscar princípios próprios, teorias novas, verdades ainda não reveladas. É como se tudo já tivesse sido dito, feito, criado, descoberto, sem nada mais restar para se criar, inventar, descobrir. Como se a inteligência humana tivesse chegado ao limite com o registro de escritos de grandes pensadores ou com o advento de descobertas que revolucionaram o mundo nos longínquos séculos que nos antecederam.

Existem fundamentos importantes que não se aprendem no decorrer desses anos todos. Princípios ocultos guardados em algum lugar muito recôndito do cérebro, os quais só vêm à tona se buscados com paciência, afinco, competência e muita persistência.

Dá-se muita ênfase à trilogia presente-passado-futuro, mas sem esclarecer suficientemente o seu significado. Incute-se grande importância ao passado dos outros e à preparação do futuro, reservando pouquíssimo tempo para o presente, que é o marco da vida de todos.

Com freqüência o passado é apresentado como a fonte do saber e, portanto, a parte mais importante da vida. Para muitos “ensinadores” o passado é a fonte de tudo, é a experiência, é a vida. Na seqüência, apresentam o futuro como algo de enorme importância, como objetivo da vida das pessoas. Assim, as pessoas aprender a pautar a sua vida na busca do saber descoberto no passado, para preparar o seu futuro. Nisso é consumido a maior parte do tempo de cada pessoa.

E do presente pouco se fala. Pouca importância é reservada ao presente. Equivocadamente se dá menos importância, ou pouca importância, ou quase nenhuma importância para a melhor parte da vida: o presente.

O presente é a melhor parte. Diria que é a única parte que realmente interessa, pois é o momento que se vive, é a própria vida que se desenvolve no presente. É no presente que tudo acontece. Nada acontece no passado e muito menos no futuro, pois ambos não existem como momento. Pode-se obter a imagem do passado, qual fotografia que leva a recordar momentos bons ou ruins, intensos ou despercebidos, ricos ou pobres. Do futuro, nem a imagem se tem: o que pode existir é a expectativa ou, quem sabe, o sonho. E todos sabem que os sonhos são apenas sonhos podendo tornarem-se em fatos somente no presente.

Então, o que são o passado, o futuro, o presente?

 

O passado


O que mais acontece no aprendizado é evocar os feitos próprios ou alheios acontecidos, ou seja, do passado. Se alguém fizer um balanço do que aprendeu durante os longos anos vividos nas salas de aula, perceberá que a maior parte do espaço foi preenchida na empreitada de decorar teorias criadas por cientistas, filósofos e outros grandes mestres.

São teorias corretas na maioria das vezes. Grande parte do tempo foi gasta no aprendizado da história universal, desde os fatos mais remotos até algumas décadas atrás, onde se rememoram os heróis, as grandes conquistas, as grandes guerras, a criação das nações modernas, etc. Existe quem imagina que franzir a testa e resgatar fatos ocorridos no passado é sinal de sabedoria. Povos perdem grande parte do seu tempo lembrando o passado. Dá-se tanta ênfase ao que ocorreu no passado que, muitas vezes, esquece-se de viver no presente.

Tudo isso tem sua importância. Mas não é só isso que é importante. Cultivar a inteligência de cada um e desenvolvê-la é extremamente importante.

É importante resgatar o passado. O nosso passado e o passado de nossos ancestrais, de nossos amigos de quem quer que seja. É a origem das origens do homem. Mais importante, porém, é que esse resgate permita que do passado se abstraiam experiências que contribuam para a construção e o aprimoramento do presente.

Cultivar em demasia as lembranças do passado pode provocar o abandono do presente. O passado já passou. O presente não, mas passará! Agarrar-se ao passado é deixar de viver o presente.

O passado é o conjunto de momentos presentes já vividos. Tudo o que se atribui ao passado nada mais é do que realizações executadas em momentos presentes que já vivemos.

O nosso passado, por exemplo, é como o nosso rastro, as nossas pegadas: lembram que por lá passamos, mas não resgatarão nossos pés. São a imagem de nossos pés, mas nunca os próprios pés.

Essa imagem, essa lembrança tem valor apenas se contribuir para que nossos pés atinjam o objetivo traçado. Assim é certo dizer que a lembrança do passado é a imagem do veículo que nos conduziu ao atual momento presente. Nada mais.

 

O futuro


O que é o futuro?
Todos aprendem que ele existirá, que é necessário se preparar constantemente para ele. Mas o que é o futuro? É possível preparar-se para o futuro? E alcançá-lo?

Disseram-nos, ainda, em nossa infância, que existem o passado, o presente e o futuro. E que a grande meta é preparar-se para o futuro. A vedete sempre foi o passado, onde se buscam os grandes exemplos, as grandes verdades, as grandes virtudes.

E o presente? Ficou esquecido. Talvez porque ele é mais complicado, porque exige mais, porque é o único momento que requer a nossa ação, a nossa decisão. Falar do passado é fácil, pois o homem não o possui. E quanto ao futuro..., bem, o futuro ainda não chegou, por isso, pode-se falar dele à vontade. Ninguém pode garantir que não acontecerá o que para ele se projeta. Mas, a exemplo do passado, o homem também não possui o futuro. Ninguém sabe se o alcançará.

Como momento, o futuro não existe. Aquilo que se denomina futuro é o momento presente seguinte ao atual. É o presente que sucederá a este presente: o próximo presente. Deixa de ser futuro para ser presente tão logo o atual presente passar. E assim sucessivamente. O futuro nada mais é que o próximo presente. E o atual presente, o próximo passado. Próximo não significa futuro? Então o presente é o futuro passado. Se próximo é futuro, então o próximo passado também é futuro.

O presente


O ponto central de tudo é o presente. O que se denomina passado já foi presente, nada mais é senão o presente já vivido. Quando vivermos o próximo presente (aprendemos a dizer que é o futuro), o atual presente se torna passado (porque não denominar de ex-presente?).

Se o homem não detém o passado e não alcançou o futuro, resta-lhe o presente. E é dele que menos se fala. Pouca importância se lhe dá. Talvez porque ele assusta mais do que o passado e o futuro juntos. Incrível: valoriza-se menos o presente, apesar de ser o único que a gente possui de verdade, que se detém, se domina, que se pode manipular, que permite construir, destruir, pensar, pelo qual se pode transformar tudo. É só no presente que se atua, que se ama. Impossível qualquer ação no passado e no futuro.

Será que quando as pessoas se detêm em demasia no passado e no futuro, em detrimento do presente, não estarão assumindo uma forma velada e erudita de fugir do presente e evitar a necessidade de assumir todas as suas nuances, as suas exigências e a obrigação constante de ser criativas para transpor todos os obstáculos que aparecem no dia a dia?

Se o passado é o conjunto de infinitos momentos presentes já vividos e que nunca mais retornarão, transformados em lembranças, a soma daqueles momentos vividos intensa ou lentamente, ou despercebidos, enfim, os inúmeros momentos que receberam o carimbo da existência do homem, o presente é o momento do pensar, da escolha, da decisão, do fazer, do realizar.

Não se vive o passado e do passado. Tudo o que dele se abstrai, só tem valor se usufruído no presente.

É no presente que se vive. É no presente que se tomam as decisões, que se erra, que se acerta. O que conta é o presente. É o exato momento. É o piscar de olhos. O presente é o momento que faz. O momento que realiza.

É no presente que se age. Se não se pode dominar o passado, porque se preocupar tanto com ele ou porque dar-lhe tanta importância? Se não se consegue ter qualquer ação sobre o futuro, para que ele existiria? Então podemos afirmar que passado e futuro não existem como momento, ou pelo menos não contam. Se o passado é a lembrança e o futuro a expectativa, o mistério e a ilusão, de positivo resta o presente.

O presente é o “momento zero”. Aquele que permite planejar, executar, viver. Ninguém consegue viver o passado, porque ele não “é”, não retorna (é possível apenas resgatar a sua lembrança). Tem-se apenas ação sobre aquilo que “é”. Nunca sobre aquilo que “foi”, ou que “será”, ou que “poderá ser”. Todos os atos são praticados no “momento zero”, porque é o único tempo que “é”. É no “momento zero” que o homem respira, se emociona, age, ama, odeia, cria, vive, realiza.

Ninguém consegue respirar, se emocionar ou agir nos momentos presentes já vividos - apelidados de passado - mas apenas no momento atual, no presente. O presente é um conjunto de etapas que se vive de forma ativa ou passiva, consciente ou inconsciente. A linha que limita e separa cada um dos momentos presentes é imaginária e não é óbice para se agir. Isso significa que não se sabe exatamente quanto dura cada momento presente. Não se conhecem os limites do presente, onde começa e onde termina. Também não se sabe quantas vezes começa e quantas termina.

É possível que comece e termine uma única vez: o momento do nascimento pode ser o início do presente, e a morte o seu término. O que é sabido é que nenhum momento já vivido pode ser revivido, por maior que seja o esforço, por mais desenvolvida que seja a tecnologia. O que se consegue é obter a sua imagem espelhada na sua lembrança. Essas lembranças podem ser muito próximas ou remotas. O momento vivido pode apenas ser lembrado, independentemente da intensidade com que tenha sido vivido.

É como olhar para a fotografia de nossos antepassados: por mais que os admiremos, ou os amemos, não poderemos resgatá-los para a vida presente por um único milésimo de segundo. Será apenas uma imagem que trará boas ou más recordações, que fará lembrar de bons ou maus momentos vividos.

O fim do presente e o começo do futuro. Daí surge outra pergunta: onde termina o presente e começa o futuro? Ou, ainda, onde começa o passado? Já se sabe que o futuro como momento não existe e que poderá existir apenas como o presente vindouro. É uma projeção, uma expectativa. Além de não poder ser demarcado, não se tem qualquer domínio ou qualquer ação sobre ele, porque toda ação possível ocorre no presente.

Pode-se propor ou idealizar tudo o que se quiser para o futuro, que ninguém poderá comprovar que não ocorrerá, porque o futuro é uma expectativa, e toda expectativa pode ser projetada para frente, mesmo que não tenha muitas chances de ser realizada. Se ficar estabelecida uma determinada data ou um determinado horário para ser o nosso futuro, este continuará sendo uma expectativa, e quando alcançado não será nada mais do que o presente de então.

Daí advém outra pergunta: se passado e futuro são inatingíveis, se sobre eles não se tem qualquer ação concreta ou qualquer domínio, para que serve a sua defesa, o seu cultivo? Se o passado é lembrança e o futuro expectativa, subentende-se que de pouco servem para o homem. Já se disse que as lembranças podem trazer benefícios somente se gerarem experiências ou fatos capazes de enriquecer as ações do presente. Essas ações, porém, são todas executadas no presente.

Para as lembranças terem sentido, devem ser capazes de indicar alternativas que auxiliem tomadas de decisões presentes. Já as expectativas são sempre incógnitas: estima-se que as ações poderão ser tomadas, mas em outros momentos presentes ainda não atingidos. Não se tem o domínio sobre elas. Têm-se a expectativa de executá-las, mas nenhuma certeza de execução.

As economias ou tesouros amealhados nos tempos presentes já vividos, frutos de trabalho e estratégias, só podem ser desfrutadas no presente. Ninguém desfruta ontem aquilo que só obterá hoje. Ninguém tem certeza de gastar amanhã algo que possui hoje, se não sabe sequer se para ele existirá o amanhã. E o amanhã, quando alcançado, será o próximo hoje, portanto, o mais novo presente, o futuro passado mais recente.

Da mesma forma como o passado não pode ser retomado, o futuro nunca será alcançado, pois se for estabelecido um momento definido como sendo o futuro, ao ser alcançado se tornará presente. Por isso é certo afirmar que, no plano material, o futuro não existe como momento, mas apenas como expectativa, ou como mistério. Alguém (não lembro quem foi) já disse que “o passado está morto, o futuro uma incógnita, e o agora é uma dádiva, por isso o chamamos de presente”.

Passado e futuro só podem ser concebidos e entendidos a partir do presente. Dependem em tudo do presente. O passado é a lembrança, o arquivo. O futuro apenas a expectativa, o sonho, a vontade.

As lembranças podem ajudar. É salutar lembrar episódios do passado, exemplos vividos, experiências arquivadas e disponíveis à visitação. Isso pode trazer conforto, facilitar a tomada de decisões com mais segurança, alertar sobre erros cometidos e ajudar a evitar que se repitam. Tudo o que está arquivado no passado fez parte de algum momento presente deixado para trás (o que não trilhou por esta senda é lenda, ilusão, invenção ou mentira). Por isso, ao rememorar esses feitos, percebe-se que a maior parte deles permanece no esquecimento. A mínima parte é trazida à tona.

Provavelmente isso ocorre porque esses feitos não foram muito importantes, e pouco ou nada podem contribuir para o presente. Se não são importantes, não vale a pena buscá-los. Se buscados, deve ser com a finalidade de contribuir para o aperfeiçoamento do presente.

Idêntica argumentação pode ser aplicada a tudo o que diz a respeito ao futuro. As pessoas aprenderam a se preparar constantemente para o futuro, mas ninguém disse quando será o futuro e, tampouco, quanto tempo durará e muito menos por quanto tempo esse futuro deve ser preparado e com qual intensidade. Alguns acreditam que o futuro é a outra vida, alcançada após a morte. Outros, céticos, não acreditam sequer nessa outra vida. O que é certo é que o futuro não está ao nosso alcance, pelo menos como momento presente.

Aperfeiçoar o presente. Desta forma, partindo-se do princípio de que o passado não retornará jamais, e que o futuro não está ao nosso alcance, voltemos ao presente. Este pode ser conhecido, vivido. É nele que tudo acontece, que se busca a sabedoria, que se ama. Nada melhor para coroar o passado, do que viver intensamente o presente. Por esse caminho se prepara tanto o futuro mais próximo quanto o mais distante, ambos representados pelos próximos momentos presentes.

É importante fazer de cada momento presente um perene aperfeiçoamento do próprio presente, amadurecido com o passar dos anos lembrando que, como momento material, ele começa com o nascimento e termina com a morte. Aí desaparecem o presente, o passado e o futuro materiais para dar lugar à vida exclusivamente espiritual.

Aperfeiçoar o presente significa, sobretudo, negar-se a aceitar que tudo já foi pensado, criado, realizado, e que somos meros plagiadores daqueles que nos antecederam. Aceitar passivamente teorias já formuladas no passado, mesmo que estejam matematicamente corretas, será negar nossa capacidade criativa, nossa inteligência.

É preciso romper paradigmas, desenvolver as potencialidades e buscar alternativas para a execução das ações decorrentes das teorias já inventadas.  Não existe uma única alternativa para a solução de qualquer problema ou enigma. Será a criatividade como ação no momento presente que poderá alcançar resultados incríveis e inéditos.

Esta capacidade criadora infinita, inerente ao homem, deve ser cultivada no dia a dia. Acomodar-se na aceitação do que já foi dito e definido não é aperfeiçoar o presente, mas adormecê-lo, condená-lo.

Valorizar o presente. Daí a importância de valorizar o presente, o que existe de verdade. O passado não é tão importante. Ele não existe mais como algo que permita qualquer ação. Apenas existiu - quando era presente. A preparação do futuro - se é que se pode preparar o futuro, pois sequer sabemos quando ele começará - se dá vivendo o presente com toda a intensidade.

Por isso, preocupar-se com o presente é a melhor maneira de dizer que se viveu de acordo com o que nos foi exigido ou nos propusemos desde o começo. Esconder-se nos arquivos do passado ou na expectativa do futuro é perder tempo, é não viver adequadamente, é deixar de construir, é fugir da realidade. Viver intensamente o presente é valorizar o futuro passado e garantir um próximo presente ainda mais promissor.

Evocar menos o passado e deixar de preocupar-se tanto com o futuro e, em conseqüência, viver voltado para o presente aperfeiçoando-o cada vez mais, é a verdadeira maneira de viver.