sábado, 18 de julho de 2026

Scherlock o velho galo cantador



Havia uma bela fazenda, distante da cidade, famosa por sua topografia e pelo cuidado com que era mantida. Chamava-se Fazenda dos Sonhos. Era dividida em duas partes: uma parte utilizada para criação de animais e cultivo de alimentos de todo tipo, e a outra era preservada, para manter a natureza intacata. Colinas cobertas por grandes árvores ladeadas por arbustos e fruteiras silvestres, banhadas por riachos de águas calmas e cristalinas, e pequenos lagos formados nas baixadas. Era verdadeiramente uma fazenda de encher os olhos do visitante.

Ela abrigava expressiva quantidade de aves e animais de diversas espécies: ovelhas, cavalos bois, porcos, galinhas, patos, gansos, perus, dentre outros. Havia também aves silvestres que se alimentavam junto com as da fazenda.

A vida seguia normalmente, como é habitual em qualquer fazenda bem cuidada. No entanto, havia um pequeno e isolado problema que causava certo desconforto entre os animais: o velho Galo Sherlock. Não o galo propriamente, mas uma atitude dele.

Era um galo grande, imponente, com penas lisas e vermelhas, cauda preta e crista vermelho-escura. Tinha pernas longas e um par de esporas invejáveis.

Por esses e outros atributos o Galo Sherlock era muito respeitado e sua presença era sempre marcante. Mas, por ser a ave mais antiga da fazenda, ele se atribuía determinadas regalias. Dentre elas, ele tinha o péssimo hábito de começar a cantar logo de madrugada quando ainda estava escuro. Seu canto forte acordava todos os animais. E ele cantava até o nascer do sol.

Um dia alguns animais resolveram conversar com o galo sobre esse detalhe inoportuno. Primeiro o porco, humilde e de cabeça baixa, depois a humilde ovelha, seguida pelo pato barulhento, pelo peru brigador, e até pelo desconfiado jacu que, tinha seu sono interrompido no meio da floresta. Todos sugeriram ao galo que aguardasse o nascer do sol para cantar. Mas, nenhum deles conseguiu convencê-lo a parar de cantar de madrugada.

Desolados, os animais se reuniram com a coruja e com a tartaruga, que habitavam a floresta próxima da fazenda (e que também acordavam todos os dias com o cantar do galo). Ambas eram muito sábias, e lhes pediram orientação. As duas ponderaram que certamente o galo deveria ser fortemente motivado para isso. Sugeriram que o procurassem e lhe indagassem sobre a motivação do seu canto tão cedo, e deram-lhe, também, outras sugestões para apresentarem como opções para o cantador.

No entardecer daquele mesmo dia, quando o Galo Sherlock se dirigia ao galinheiro para repousar, os animais o abordaram:

“Amigo galo, pode nos dizer por que você começa a cantar tão cedo? Sabia que o seu canto na madrugada incomoda a todos”?

Então, com olhar sereno, educadamente o galo respondeu:

“Porque a cada dia que nasce eu interpreto como uma grande bênção de Deus e eu fico muito ansioso para agradecer e celebrar a vida através do meu canto”.

Os animais se entreolharam e ficaram sem saber o que dizer. Mas lembraram das sugestões recebidas da Coruja e da Tartaruga. Então, elogiaram a atitude do galo, mas em nome da harmonia na fazenda lhe sugeriram que, logo que acordasse, cantasse uma única vez, e em voz baixa, como se fosse uma prece. Depois, quando o sol começasse a despontar no horizonte, poderia voltar a cantar forte e acordar os que ainda dormiam.

O Galo Sherlock ficou emocionado com o que ouvira de seus amigos e considerou ser uma medida correta. Então, garantiu aos seus interlocutores que a partir daquela madrugada agiria exatamente da forma como lhe fora sugerido.

Desde aquele dia os animais puderam descansar sem ter seu sono interrompido pelo velho galo e a harmonia voltou a vigorar como ponto forte na Fazenda dos Sonhos.

Pensamento: Se cada um decide respeitar os limites e as diferenças dos outros, a vida se torna muito mais leve.