Havia uma bela fazenda, distante da cidade,
famosa por sua topografia e pelo cuidado com que era mantida. Chamava-se
Fazenda dos Sonhos. Era dividida em duas partes: uma parte utilizada para
criação de animais e cultivo de alimentos de todo tipo, e a outra era preservada,
para manter a natureza intacata. Colinas cobertas por grandes árvores ladeadas
por arbustos e fruteiras silvestres, banhadas por riachos de águas calmas e
cristalinas, e pequenos lagos formados nas baixadas. Era verdadeiramente uma
fazenda de encher os olhos do visitante.
Ela abrigava expressiva quantidade de aves
e animais de diversas espécies: ovelhas, cavalos bois, porcos, galinhas, patos,
gansos, perus, dentre outros. Havia também aves silvestres que se alimentavam
junto com as da fazenda.
A vida seguia normalmente, como é habitual
em qualquer fazenda bem cuidada. No entanto, havia um pequeno e isolado
problema que causava certo desconforto entre os animais: o velho Galo Sherlock.
Não o galo propriamente, mas uma atitude dele.
Era um galo grande, imponente, com penas
lisas e vermelhas, cauda preta e crista vermelho-escura. Tinha pernas longas e
um par de esporas invejáveis.
Por esses e outros atributos o Galo
Sherlock era muito respeitado e sua presença era sempre marcante. Mas, por ser
a ave mais antiga da fazenda, ele se atribuía determinadas regalias. Dentre
elas, ele tinha o péssimo hábito de começar a cantar logo de madrugada quando ainda
estava escuro. Seu canto forte acordava todos os animais. E ele cantava até o
nascer do sol.
Um dia alguns animais resolveram conversar
com o galo sobre esse detalhe inoportuno. Primeiro o porco, humilde e de cabeça
baixa, depois a humilde ovelha, seguida pelo pato barulhento, pelo peru
brigador, e até pelo desconfiado jacu que, tinha seu sono interrompido no meio
da floresta. Todos sugeriram ao galo que aguardasse o nascer do sol para
cantar. Mas, nenhum deles conseguiu convencê-lo a parar de cantar de madrugada.
Desolados, os animais se reuniram com a
coruja e com a tartaruga, que habitavam a floresta próxima da fazenda (e que
também acordavam todos os dias com o cantar do galo). Ambas eram muito sábias,
e lhes pediram orientação. As duas ponderaram que certamente o galo deveria ser
fortemente motivado para isso. Sugeriram que o procurassem e lhe indagassem
sobre a motivação do seu canto tão cedo, e deram-lhe, também, outras sugestões
para apresentarem como opções para o cantador.
No entardecer daquele mesmo dia, quando o
Galo Sherlock se dirigia ao galinheiro para repousar, os animais o abordaram:
“Amigo galo, pode nos dizer por que você
começa a cantar tão cedo? Sabia que o seu canto na madrugada incomoda a todos”?
Então, com olhar sereno, educadamente o
galo respondeu:
“Porque a cada dia que nasce eu interpreto
como uma grande bênção de Deus e eu fico muito ansioso para agradecer e celebrar
a vida através do meu canto”.
Os animais se entreolharam e ficaram sem saber
o que dizer. Mas lembraram das sugestões recebidas da Coruja e da Tartaruga.
Então, elogiaram a atitude do galo, mas em nome da harmonia na fazenda lhe
sugeriram que, logo que acordasse, cantasse uma única vez, e em voz baixa, como
se fosse uma prece. Depois, quando o sol começasse a despontar no horizonte, poderia
voltar a cantar forte e acordar os que ainda dormiam.
O Galo Sherlock ficou emocionado com o que
ouvira de seus amigos e considerou ser uma medida correta. Então, garantiu aos
seus interlocutores que a partir daquela madrugada agiria exatamente da forma
como lhe fora sugerido.
Desde aquele dia os animais puderam
descansar sem ter seu sono interrompido pelo velho galo e a harmonia voltou a
vigorar como ponto forte na Fazenda dos Sonhos.
Pensamento: Se cada um decide respeitar os limites e
as diferenças dos outros, a vida se torna muito mais leve.