Em outros tempos...
Havia uma vasta floresta com
muitas árvores centenárias, imponentes, que abrigavam inúmeros pássaros e
pequenos animais. Diariamente, e em grande sinfonia, o canto dos passarinhos anunciava
o nascer da manhã e o cair da tarde.
Nessa majestosa floresta vivia
também uma águia muito forte, veloz e temida. Por ser a maior e a mais forte ave
da floresta, certo dia ela se atribuiu o direito de comandar todos os pássaros,
impondo-lhes suas próprias regras.
Assim, num dia ensolarado,
quando os pássaros estavam abrigados em sombras refrescantes, próximas a um
riacho, a Águia pousou no galho mais alto de uma dessas árvores centenárias, e
proclamou:
- Atenção, a partir de hoje todos
vocês deverão me obedecer e terão que seguir as regras que eu mesma ditarei. E,
para começar: ninguém mais poderá voar sem minha permissão, e nem cantar sem
meu prévio consentimento. Quem desobedecer será severamente punido.
Grande silencio se abateu
sobre a floresta. Os passarinhos, por serem pequenos e frágeis, passaram a
temer a força e as garras afiadas da águia. Então, baixaram a cabeça,
resignados.
Mas, um pássaro pequeninho não
concordava com tal tirania. Era um colibri solitário, quase despercebido, mas com
uma inteligência muito desenvolvida. Um dia ele voou até bem próximo da águia e
falou com firmeza:
- Senhora Águia, seu tamanho
não lhe dá o direito de mandar em todos nós. A floresta é patrimônio de todos.
A águia zombou dele e soltou
uma estrondosa gargalhada. Em seguida falou:
- Minúsculo colibri, quem
você pensa que é? Que pretensão a sua! Acha que pode me intimidar?
Sem demonstrar medo, o
colibri respondeu:
- Sozinho, talvez eu não a
intimide. Mas quando me juntar a todos os demais você verá o quanto seremos
fortes. Aguarde-nos e verá.
Então o pequeno colibri alçou
voo e começou a chamar os pássaros: sabiás, andorinhas, bem-te-vis, tucanos,
pica-paus, pardais, saracuras e todos os outros. Em sua preleção, ele os
convenceu de que não deveriam sentir medo de enfrentar a velha águia, apesar
dela ser tão forte. Argumentou que se agissem unidos, seriam imbatíveis.
Pouco a pouco eles foram
criando coragem, e então partiram para a ação: cada um com sua melodia mais
aguçada, começou a cantar. E seu canto criou uma linda e vibrante sinfonia.
A Águia se sentiu desafiada e
ofendida. Então tentou calá-los, com suas ameaças habituais. Mas era tarde,
nenhum pássaro demonstrou medo, não parou de cantar e nem arredou pé. Então ela
percebeu que sua autoridade havia se esvaziado diante da resistência compacta
dos pássaros.
Aos poucos os pássaros a
cercaram de tal maneira que, como nunca tinha acontecido, ela se sentiu fraca e
o medo tomou conta dela. E ela percebeu que não poderia enfrentar a todos.
Com seu orgulho ferido, e apavorada,
lançou um último olhar sobre seus oponentes e, em seguida, voltou para o meio
da floresta, de onde nunca deveria ter saído.
A floresta voltou a ser um
lugar livre, onde cada pássaro podia voar e cantar como quisesse, sem que seu
canto e seu voo fossem censurados.
E o pequeno colibri, antes tão discreto, passou a ser lembrado como aquele que provou que coragem e união valem mais do que tamanho.